Trabalho
Discriminação causada pela IA

A inteligência artificial reproduz a discriminação

- Janine Rey

A inteligência artificial não é inteligente no sentido humano. No fundo, trata-se de algoritmos que analisam grandes quantidades de dados existentes, identificam padrões e os aplicam a novas situações. Assim, a IA reflete o passado – e, com ele, as desigualdades e discriminações existentes na nossa sociedade. Para os trabalhadores, isto acarreta riscos consideráveis.

Discriminações algorítmicas

Os algoritmos aprendem com dados do passado – e, assim, também incorporam os preconceitos desses dados. Isso influencia, por exemplo, o processo de candidatura: os sistemas de IA são treinados com decisões anteriores e aprendem, assim, quais candidaturas foram «bem-sucedidas» e quais não foram. Nesse contexto, a avaliação baseada apenas no nome, no género ou na fotografia pode levar a uma desigualdade de tratamento. Isso, por si só, não é novidade. No entanto, os sistemas algorítmicos tiram conclusões sobre o género, a origem ou a classe social com base em indícios aparentemente neutros, como o percurso académico, os conhecimentos linguísticos ou a experiência profissional. Os candidatos são automaticamente excluídos, sem que um ser humano analise os seus documentos.
A discriminação começa muitas vezes antes mesmo da candidatura. Pesquisas da Algorithm Watch revelaram que os anúncios de emprego em plataformas online como o Facebook são exibidos de forma direcionada a determinados grupos – ou simplesmente não são. Isso reforça os papéis tradicionais. Os empregos na área da infância são mais frequentemente apresentados a mulheres, enquanto os empregos nos transportes são apresentados principalmente a homens.
 

 

Mais stress, em vez de mais salário e tempo

Também no dia-a-dia do trabalho, o uso da IA aumenta a pressão sobre os trabalhadores. Sob o pretexto da eficiência e da produtividade, os processos são condensados e acelerados. Para os trabalhadores, isso significa: mais ritmo, mais controlo e mais stress. Mas nenhuma participação nos lucros, nem aumento salarial, nem mais tempo livre.
Em grandes centros logísticos, como na Amazon, isto já é levado ao extremo: algoritmos atribuem tarefas, calculam os tempos médios necessários e monitorizam constantemente o desempenho. Através da IA, os dados são analisados em tempo real. Quem não atingir os valores-alvo predefinidos é automaticamente sancionado.

 

Os trabalhadores devem poder ter uma palavra a dizer

A utilização da IA no local de trabalho não pode ser um espaço sem regras. Deve ser possível contestar as decisões. Por isso, o Unia defende a transparência na utilização da IA no local de trabalho. Os direitos de co-decisão aplicam-se também às tecnologias digitais. Os empregadores assumem a total responsabilidade pela utilização de sistemas de IA e devem responder pelas suas decisões erradas. Se houver suspeita de discriminação, ou mesmo se esta for comprovada, esta pode ser ser comunicado ao  Algorithm Watch.

Referências:

 

A autora é secretária especializada do Unia